A Chegada (Arrival, 2016); Direção: Denis Villeneuve; Roteiro: Eric Heisserer; Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Tzi Ma, Mark O’Brien; Duração: 116 minutos; Gênero: Drama, Ficção Científica; Produção: Shawn Levy, Dan Levine, Aaron Ryder, David Linde; Distribuição: Sony Pictures; País de Origem: EUA; Estreia no Brasil: 24 de Novembro de 2016; Censura: 10 anos;

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Encarado do ponto de vista contemporâneo, o conto Story of Your Life, de Ted Chiang, pode até ser considerado ingênuo. Lançado em 1998, antecede até mesmo o trágico 11 de Setembro, que alterou a situação das coisas nos Estados Unidos, deixando o país num estado de alerta que jamais parece ter apaziguado.

Visto pelos olhos de Hollywood tal situação só tende a piorar. Eric Heisserer, responsável pela adaptação do conto para roteiro e também responsável pelo roteiro da atrocidade que é a adaptação de Quando As Luzes Se Apagam (Lights Out), não faz muito caso de questionar isso, assim, acaba caindo em armadilhas que impedem o trabalho de Denis Villeneuve e companhia de atingir seu potencial máximo.

Protagonizado por Amy Adams, em A Chegada (Arrival) a atriz interpreta Louise Banks, uma linguista especialista que é recrutada pelo exército americano para tentar se comunicar com formas extraterrestres, que repentinamente apareceram na terra, e compreender qual o propósito de tal visita.

Ao mesmo tempo em que Louise precisa descobrir, o quanto antes de preferência, uma forma de se comunicar e compreender os alienígenas, o governo norte-americano também tem a intenção de aprender o máximo possível, enviando com ela o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner). Entretanto, diferente da abordagem pacífica dos americanos, China e Rússia não encaram seus visitantes da mesma forma, fazendo com que as tensões se escalem e as descobertas de Louise se tornem a peça chave de um intrincado quebra-cabeça.

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Há algo que não soa orgânico, porém, durante o filme. É exatamente o nome citado no início da crítica: Eric Heisserer. Afinal, seu roteiro faz menos ao filme do que o próprio conto. Mas não é uma questão de diferenças entre adaptação e material base, e sim as escolhas pela qual o roteirista opta.

Porque, se difere do conto ao instalar uma urgência e a crescente tensão proveniente de um determinado medo de outros países, Eric Heisserer acaba delineando para A Chegada um terceiro ato que também se difere até do restante do próprio filme, fazendo com que vilões e heróis precisem ser desenhados.

Quase que as explicações também, e A Chegada se torna, no final das contas, uma apresentação didática do processo pelo qual está passando Louise Banks. O que evidencia ainda mais essa necessidade didática, e a falta de sustentação do roteiro em suas próprias palavras, está exatamente numa narração em voz over por meados do filme.

O personagem de Jeremy Renner explica como se dá a linguagem dos alienígenas numa exposição enfadonha do roteiro. Aqui Eric Heisserer mastiga para o público usando a explicação do conto, ao invés de adaptá-lo. “Mostre, não conte” (show, don’t tell), mantra tão conhecido e querido pelos roteiristas, aqui é exorcizado da narrativa por completo.

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Essa incompetência de Heisserer se encontra velada pelo nome que é basicamente o salvador da pátria em A Chegada. Em termos de competência, é difícil imaginar qualquer outro diretor fazer o que Denis Villeneuve consegue aqui, onde, aliado de Bradford Young, diretor de fotografia, Jóhann Jóhannsson, compositor, Joe Walker, editor, entre outros nomes da equipe técnica, se extraí algo excepcional.

O que só acresce aos méritos de Amy Adams, que demonstra exímia força emocional na constituição de sua personagem, tornando válida até uma análise, no geral, das mulheres protagonistas nos filmes do diretor Denis Villeneuve. Portanto, se há algo que funciona sem empecilhos é a beleza emocional de A Chegada, realçada por Amy Adams em rodeios da trama que guardam as surpresas mais gratificantes da narrativa.

A gratidão dessas surpresas é mais pelo trabalho dos elogiados, do que aquele que aqui tanto crítico. A razão, sem spoilers, está numa transição que é muito mais técnica, onde, em meados do filme, o folhear de páginas passa de irritante para confuso à personagem de Amy Adams, que transpassa suas reações a nós. Porém, é no funcionamento todo da cena que A Chegada impressiona.

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No cerne dessa cena revela-se uma sensibilidade que é estendida por uma boa parcela do filme. Isso é o mais importante: não há ação ou aventura no desenvolvimento da história; por isso mesmo o clímax de A Chegada é destoante, pois Denis Villeneuve consegue tirar muito mais do filme quando ele é a ficção científica que nasceu para ser: humana, reflexiva e consciente.

Não à toa A Chegada tem seu início e fim, se é que os dois podem assim ser definidos, embalados por uma das composições que, honestamente, é das mais belas que já tive o prazer de ouvir. Num ciclo em que, através do elenco, da fotografia e da trilha sonora, somos tocados em nossos âmagos.

Tudo porque Denis Villeneuve se sobressaí a empecilhos narrativos para firmar seu nome como um dos mais proeminentes no cinema atual. É realmente uma pena, no entanto, que parte do roteiro de A Chegada não acompanhe a confiança que seu diretor possui no espectador. Pois, enquanto um não se sustenta por si só, outro constrói exatamente nessa união com o público, aqui de percepções, o que a deliciosa ingenuidade intelectual de Ted Chiang tanto almejara.

A Chegada – Trailer Legendado: