Nunca escondi meu apreço pelo diretor, roteirista, ator e comediante Woody Allen, facilmente o considero um dos meus realizadores favoritos, visto sua visão de mundo singular ser compatível com a minha. Posso até dizer que em alguns momentos me sinto em um de seus filmes, seja pelo pessimismo predominante na vida, ou simplesmente os famosos “acasos”. Constantemente revisito sua filmografia, sempre em momentos distintos, me fazendo levar a ter múltiplas leituras de suas obras, tendo novas percepções e até experiências. Foi exatamente isso que aconteceu ao rever “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985), um filme no qual sempre achei tocante e divertido, porém à medida do tempo se mostrou um incrível retrato social da época pós-29 e também um pouco da vida de Woody Allen.

Podem até chamar o diretor de metido a intelectual, porém embora sua simplicidade em seus roteiros, há uma argumentação de proporções minimamente geniais. No enredo, a crise de 29 corrói os Estados Unidos, Cecília é uma garçonete nesse cenário, oprimida pelo marido machista que a espanca e trai, tendo como fuga a sétima arte. Em dado momento, ela perde o emprego e vai imediatamente ao cinema, assistindo o filme “A Rosa Púrpura do Cairo” seguidamente, até que, magicamente, os personagens começam a interagir com ela, fazendo seu protagonista Tom Baxter (Jeff Daniels) sair  literalmente da tela, se encantando com a beleza do mundo real, pelas experiências reais e pelos sentimentos humanos, encarnados pela ingenuidade e graciosidade de Cecília.

Woody Allen cria uma parábola usando a crise de 29, a “grande depressão” passa a representar todos os indivíduos da sociedade da época, o mundo real é a depressão, a melancolia e a desesperança, afligindo Cecília que vê no cinema a fuga para um mundo perfeito. Para além da tela, temos a antítese da realidade: os sonhos realizados, as grandes histórias de amores, o glamour de uma sociedade despreocupada com problemas financeiros, as múltiplas possibilidades fecundas… Enfim, um lugar no qual tudo parece ser possível, onde a felicidade soa como característica obrigatória. Para a protagonista do filme, aquilo só passava de momentos passageiros, mas o que fazer simplesmente quando se há a possibilidade de conviver com esse mundo? É um questionamento feito pelo diretor ao seu expectador, será que vale mais a pena vivermos na realidade ou no mundo da fantasia? Para Woody Allen parece claro a preferência pelo segundo, sobretudo pela vida ser deveras cruel, não tem pena de triturar os ingênuos sonhadores, contudo é fundamental perceber que devemos enfrentar à altura os desafios impostos pelo mundo cruel. A fantasia sempre deve estar presente, porém muito infelizmente não podemos nos entregar integralmente a ela.

Em determinado momento chave do filme, passa a cena antológica de “O Picolino (Top Hat, 1935), na qual Fred Astaire dança e cantarola com Ginger Rogers: “Heaven, I’m in Heaven“, ou seja, “Céu, estou no céu”, definindo perfeitamente a experiência de ir ao cinema. É o paraíso, o local onde imergirmos para um novo mundo, esquecemos nossos problemas e nos deparamos com indivíduos que viram nossos amigos durante a experiência, seja ela boa ou ruim. Assim, Allen consegue fazer uma ode de amor ao cinema, sendo seu refugio para enfrentar os problemas da realidade. É uma forma tocante, sensível e bastante pessoal de mostrar o potencial da sétima arte em influenciar e até mudar a vida das pessoas, servindo não apenas de mero entretenimento, como também um pilar para sobreviver a esse mundo cada vez mais individual, depressivo e pessimista. Particularmente me identifiquei muito com a personagem de Mia Farrow, talvez por sua ingenuidade ou simplesmente por optar, em dado momento, pela escolha mais racional, quando na verdade nos guiar por impulsos e pela “emoção” pode ser a melhor opção, mesmo com as controversas.

Muita gente pode achar o cinema de Allen chato ou pedante, ao meu ver é um cinema inteligente e divertido, demonstrando uma visão de mundo tão singular, mesmo com tanto pessimismo e desesperança na humanidade, o diretor mostra que ainda há esperança na vida, desde que estejamos abertos a um toque de fantasia, vindo ela em forma de filmes ou não. Tudo se torna válido para fugir da realidade, menos esquece-la dela totalmente, uma tarefa árdua ao espectador e, possivelmente, ao próprio Woody Allen. Nada mais instigante.

 

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